• Eliane Silva

O poder da empatia

A arte de se colocar no lugar do outro para transformar o mundo


A empatia tem o poder de revolucionar as relações humanas

Nunca se falou tanto em empatia. Considerada como “a arte de se colocar no lugar do outro por meio da imaginação, compreendendo seus sentimentos e perspectivas e usando essa compreensão para guiar as próprias ações”, ela potencializa amplamente a mudança social.

“A empatia pode gerar uma revolução. Não uma daquelas revoluções antiquadas, baseadas em novas leis, instituições ou governos, mas algo muito mais radical: uma revolução das relações humanas.”

Somos egoístas e individualistas, como fizeram crer, por exemplo, Freud e Hobbes. Mas não somos apenas isso. É o que neurocientistas, biólogos e psicólogos vêm tentando provar nos últimos anos. Somos também Homo empathicus: nosso cérebro está equipado com circuitos da empatia, prontos para serem ativados.

“Talvez não haja nenhuma maneira mais poderosa de escapar aos limites de nossos egos, e de ganhar novas perspectivas sobre como viver, do que olhando a vida através dos olhos de outros.”

Em uma sociedade como a nossa, que passa por um momento de déficit de empatia, excesso de narcisismo e individualismo, faz-se mais do que necessário sair de nosso próprio ego para nos conectar verdadeiramente com outros seres humanos. Diante desse cenário, é preciso entender como somos capazes de aumentar nosso potencial empático, que independe da idade. Pessoas altamente empáticas costumam apresentar seis hábitos:

  1. Acionam seu cérebro empático

  2. Dão o salto imaginativo

  3. Buscam aventuras experienciais

  4. Praticam a arte da conversação

  5. Viajam em sua poltrona

  6. Inspiram uma revolução


Hábito 1 – Acionar o cérebro empático

A capacidade de empatizar faz parte de nossa herança genética e pode aumentar ao longo da vida. Fato é que todo ser humano possui um potencial empático latente, à espera de um estímulo. Nesse sentido, a descoberta dos neurônios-espelho foi de suma importância. “Trata-se de neurônios que são ativados tanto quando estamos experimentando algo (como dor) como quando vemos outra pessoa passando pela mesma experiência.” Além disso, é muito provável que os neurônios-espelho façam parte de um “circuito da empatia”, algo muito mais complexo, envolvendo diversas regiões do cérebro.

“Violência política e étnica, intolerância religiosa, pobreza e fome, abusos dos direitos humanos, aquecimento global – há uma necessidade urgente de utilizar o poder da empatia para enfrentar essas crises e transpor as divisões sociais.”

As pesquisas revelam que educar para a empatia ajuda no bem-estar das crianças e promove inteligência emocional; pode, inclusive, ajudar a solucionar conflitos nos mais diferentes contextos, como na família, na escola e nas empresas. Porém, como a maioria de nós não aprendeu sobre empatia na infância, podemos buscar outras formas de expandi-la. É preciso adotar o hábito de acionar o cérebro empático: dar aos nossos circuitos empáticos a chance de vir à tona. Registrar mentalmente as vezes em que entramos em contato com pensamentos ou ações empáticas – nossas e dos outros – já é um bom começo.


Hábito 2 – Dar o salto imaginativo

Por que a empatia não é uma prática constante do ser humano, apesar de todos os benefícios já comprovados? Existem quatro barreiras sociais e políticas que atrapalham esse processo:

  • Preconceito

  • Autoridade

  • Distância

  • Negação

“” (...) o século XXI precisa ser diferente. Em vez de introspecção, deveríamos criar a Era da Outrospecção, na qual encontramos um melhor equilíbrio entre olhar para dentro e olhar para fora.

Todos nós nutrimos uma gama de preconceitos e pressupostos sobre o outro. Ao fazer isso, desumanizamos e anulamos a individualidade, gerando indiferença. Além de sermos preconceituosos, temos a tendência de obedecer à autoridade. A ideia de “cumprir ordens” já foi desculpa para os crimes mais bárbaros da história. Pessoas altamente empáticas são justamente aquelas que não hesitam em desafiar a autoridade quando se faz necessário.

“Em vez de se perguntar ‘para onde posso ir da próxima vez?’, pergunte ‘no lugar de quem posso me pôr da próxima vez?’.”

A distância espacial é mais uma barreira ao florescimento da empatia. É mais difícil nos importarmos com quem está longe e com estranhos. A distância social e a distância temporal também atrapalham. Pensar naqueles diferentes de nós, ou naqueles que viverão daqui a cem anos é um exercício para poucos. Estreitar todas essas distâncias consiste num grande desafio empático.

“Ainda que os primeiros anos de vida sejam um período intenso e voltado para o estabelecimento dos circuitos em nossos cérebros, certamente ainda é possível estender nossa empatia quando ficamos mais velhos.”

Por fim, a “cultura da negação” implica que “fazemos vista grossa” para a realidade, apesar de ela estar escancarada à nossa frente. Por vergonha, culpa, instinto de proteção, achamos melhor não ver. O primeiro passo é encarar essas quatro barreiras com coragem, para então conseguir superá-las.

“Especialistas em educação reconhecem cada vez mais que o ensino de habilidades empáticas não é só um extra cujo acréscimo é ‘interessante’, merecendo ser parte fundamental do currículo ao lado da leitura, escrita e aritmética.”

É preciso humanizar o outro. Para isso, pode-se, por exemplo, imaginar como é a vida de todos aqueles com quem cruzamos em nosso dia a dia, ou a vida daqueles de quem nossas ações rotineiras dependem. Outra abordagem é jogar “jogos de personagem”, imaginando diferentes pessoas sob uma ótica mais humana, pondo abaixo os estereótipos, para abrir novas possibilidades de relação.

“A empatia é parte essencial da solução de conflitos na família, no pátio da escola, na sala de conselho e na ‘sala de guerra’ de uma empresa.”

Descobrir o que temos em comum mesmo que seja com um estranho é mais uma forma de nos conectarmos com as emoções do outro. A dor e o sofrimento, por exemplo, são capazes de nos fazer transpor as divisões sociais e desenvolver relações empáticas. Se a Regra de Ouro diz: “Trate os outros como gostaria de ser tratado”, ela não dá conta de situações em que a cultura e a visão de mundo do outro divergem muito das nossas. Seria preciso ir mais além, adotando a Regra de Platina: “Trate os outros como eles gostariam que você os tratasse.”


Hábito 3 – Buscar aventuras experienciais

Quem tem disposição para mergulhar em experiências empáticas acaba conseguindo se pôr no lugar do outro com mais facilidade. Claro, é algo mais difícil do que simplesmente ter uma conversa ou assistir a um filme, mas seu potencial é incrível

“A empatia murcha e morre quando deixamos de reconhecer a humanidade de outras pessoas – sua individualidade e singularidade – e as tratamos como seres dotados de menos valor que nós mesmos.”

A “imersão, por exemplo, pode ser vista como a empatia sob disfarce. Há inúmeros exemplos ao longo da história, passando por São Francisco de Assis e George Orwell, para mencionar apenas dois empatistas famosos. Trata-se de tentativas de transpor barreiras de classe, de raça, entre outras, desmascarando iniquidades sociais e funcionando como denúncia. A grande diferença é que esse tipo de denúncia se baseia na experiência e não em suposições ou teorias.

“A conversa e a empatia estão intimamente entrelaçadas: fazer o esforço de compreender a perspectiva de outra pessoa pode ajudar a reanimar um diálogo que de outro modo seria banal, ao passo que a própria conversa tem o poder de forjar a conexão empática.”

A “exploração” do mundo sob a forma de viagens também pode ampliar a visão empática. Porém, não basta viajar: é preciso ter em mente um projeto claro, que contribua para ampliar a visão de mundo do viajante.

Por fim, a empatia experiencial também se desenvolve por meio da “cooperação”. Trabalhar em conjunto, com objetivos comuns e compartilhando experiências ajuda na fusão empática. Em suma, deixe de lado os manuais e parta para as aventuras experienciais.


Hábito 4 – Praticar a arte da conversação

Estamos em meio a uma crise da conversação: falta qualidade às nossas conversas e proliferam-se as conversas superficiais, em decorrência das novas tecnologias. Mas é justamente a conversa que nos ajuda a penetrar na escuridão do outro; conversa e empatia caminham lado a lado. Pessoas empáticas costumam apresentar seis características em suas conversas: curiosidade por estranhos, escuta radical, retirada da própria máscara, preocupação com o outro, espírito criativo e pura coragem.

“Precisamos conceber as organizações não como máquinas, mas como redes de relações humanas (...) Bill Drayton” (...), fundador da Ashoka, afirma que a empatia é um pré-requisito absoluto para um bom trabalho em equipe e liderança organizacional.

A curiosidade por estranhos deveria ser encarada como virtude suprema, pois nos possibilita descobrir quem são esses estranhos e como enxergam o mundo. Para que as conversas sejam verdadeiramente ricas, deve-se ultrapassar as trivialidades e ir a fundo nos temas importantes. Ouvir o outro com atenção, não interromper seu pensamento, evitar preencher os silêncios e estabelecer um diálogo de mão dupla, em vez de uma entrevista, são dicas boas. Além da curiosidade por estranhos, pessoas extremamente empáticas sabem ouvir: apresentam “escuta radical”.

“Quando uma massa significativa de pessoas se une para dar o salto imaginativo para a vida de outros, a empatia tem o poder de alterar os contornos da história.”

Contudo, apenas escutar não basta. Para que a empatia se desenvolva, é necessário que caiam nossas máscaras. A empatia se faz na troca: ao se abrir com o outro, para que ele se sinta à vontade para se abrir também. Portanto, a conversação precisa ser uma via de mão dupla. Existe um novo movimento no mundo dos negócios, que vem começando a valorizar mais e mais a inteligência emocional, a abertura e a sensibilidade. Afinal, as organizações são redes de relações humanas. Outro ponto fundamental das conversas empáticas é a preocupação com o outro. Abordagens autocentradas, utilitárias e instrumentais estão mais para o “marketing da empatia”, uma ideia a serviço das vendas. Agora, quando as conversas são pautadas pela preocupação verdadeira com o outro, a empatia floresce de forma genuína.

“A ideia da empatia coletiva é especialmente relevante hoje porque contrabalança o foco extremamente individualista da cultura moderna da autoajuda” (...).

Além de se preocuparem com o outro, pessoas extremamente empáticas inserem criatividade em suas conversas. Ultrapassam a superficialidade, adotando diálogos significativos e profundos. Por fim, a coragem faz com que tenhamos conversas difíceis, mas necessárias. Assim, a empatia pode surgir em contextos complexos, transformando vidas e colaborando para mudanças sociais.


Hábito 5 – Viajar em sua poltrona

A arte consegue nos transportar para vidas muito diferentes da que levamos. Palavras e imagens têm grande potencial de gerar empatia, apesar de oferecerem experiências “de segunda mão”. Assim, pode-se dizer que a arte ativa nosso ego empático, com chances de acarretar mudanças reais no dia a dia. Essa “empatia de poltrona” também abrange o mundo digital.

“Tornamo-nos mais interessados em compreender outras pessoas, em vez de meramente nos apiedarmos delas.”

Inúmeros filmes e livros ultrapassam as fronteiras das telas e das páginas impressas, podendo trazer à tona o Homo empathicus que habita em nós. São oportunidades de entrar em contato com realidades que talvez jamais conhecêssemos por meio de experiências diretas. Assim, a literatura e o cinema, por exemplo, podem servir de veículos para que se dê a transformação empática, por meio da adoção de perspectiva. A fotografia também tem um imenso potencial político e educativo.

Sobre as redes digitais, é verdade que elas nos conectam instantaneamente a todos os cantos do mundo, proporcionando interações de mão dupla, mas é preciso usá-las com sabedoria, pois o efeito pode ser justamente o contrário: esse tipo de mídia traz ao mesmo tempo oportunidades para a empatia e ameaças a ela. Se por um lado há um estímulo à superficialidade, ao narcisismo e ao cyberbullying – entre outros pontos negativos sob o aspecto da empatia – vemos surgir, por outro, iniciativas que ajudam a criar empatia de massa e propiciar mudanças políticas relevantes, como foi o caso da Primavera Árabe e do movimento Occupy. Porém, nada disso dispensa o encontro face a face, real, o ativismo autêntico.


Hábito 6 – Inspirar uma revolução

A empatia precisa sair do âmbito da vida privada e ganhar também a vida pública. É possível criar ondas de empatia coletiva, capazes de transformar a história. Pobreza, violência, desigualdade e degradação ambiental são alguns dos problemas atuais que podem ganhar muito com a criação de uma cultura da empatia.

Na história moderna do Ocidente, destacam-se três ondas de empatia. A primeira ocorreu no século XVIII, quando despontaram na Europa as organizações humanitárias para combater as inúmeras atrocidades e violências cotidianas. A segunda onda ocorreu na esteira da Segunda Guerra Mundial, quando o direito das minorias étnicas e religiosas tornou-se uma questão. Além disso, a partir dos anos 1950, com o advento da televisão, as imagens da pobreza, da guerra e da miséria começaram a invadir os lares, sensibilizando o mundo todo. A terceira onda de empatia começou nos anos 1990 e ainda está em curso. Entre outros desdobramentos, ela abrange a ideia de que as crianças devem aprender sobre empatia desde cedo, de que a empatia pode ajudar na solução de conflitos e também no enfrentamento das questões climáticas.


A grande revolução acontecerá nas relações pessoais, e a empatia é um importante instrumento para isso.


Ainda há um longo caminho pela frente: despertar empatia pelas gerações futuras parece um dos maiores desafios. O conceito de empatia nunca foi tão popular: cabe a nós, agora, encontrar formas de expandi-lo ainda mais.

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