• Eliane Silva

Como avaliar sua vida?


Só porque você tem penas


Durante séculos, os seres humanos sonharam em voar como pássaros. Os primeiros aviadores aventureiros se amarravam em engenhocas com penas e, batendo as “asas” freneticamente, muitas vezes caíam para a morte. Então, em 1738, o matemático Daniel Bernoulli publicou um livro sobre a mecânica dos fluidos que explicava o conceito da sustentação aerodinâmica aplicada ao voo. Acontece que a correlação entre voo e asas significa pouco em comparação com a causalidade do voo. Os pássaros não voam porque têm asas. Os pássaros voam porque utilizam instintivamente a teoria do “e se”: se eles batem as asas de uma certa maneira, os seus corpos logo se ascendem e eles voam.

“Se as decisões que você toma sobre onde investir o seu sangue, suor e lágrimas não são consistentes com a pessoa que você aspirar ser, você nunca vai se tornar essa pessoa.”

O conceito de se analisar as questões sob a perspectiva causal do “e se” é uma teoria sólida da gestão que pode funcionar também na sua vida pessoal. Para se provar confiável, uma teoria deve explicar “o que faz com que as coisas aconteçam e por quê”. As teorias de gestão são válidas caso funcionem de forma consistente e sejam aplicadas universalmente. As empresas podem utilizar a abordagem “e se” para definirem problemas e oportunidades, anteciparem os desafios do futuro e preverem as ações específicas a serem tomadas para lidar com eventuais problemas. Os indivíduos podem aplicar esse processo para avaliar e gerir as escolhas pessoais e profissionais. O pensamento “e se” pode ajudar você, de forma realista, a prever o que vai acontecer, não o que você espera que aconteça.


O que nos motiva


Talvez você tenha atingido obstáculos na carreira que o levaram a tomar caminhos imprevistos e hoje considerados insatisfatórios. Se esse foi o caso, aplique a estratégia “e se” para definir novas prioridades e alcançá-las de verdade, apesar dos desvios da vida. Algumas vezes é preciso seguir uma estratégia totalmente nova ou se ajustar a complicações imprevistas. Mesmo em meio a barreiras, você pode definir uma nova direção e buscá-la de forma produtiva caso conheça os impulsionadores internos que levam aos objetivos.

“Fins dignos raramente surgem inadvertidamente (...). Um propósito deve ser concebido e escolhido deliberadamente e depois perseguido.”

Duas escolas de pensamento definem esses impulsionadores: “a teoria do incentivo” afirma que as pessoas trabalham com base no quão bem elas são pagas; a “teoria da motivação” sustenta que os trabalhadores aplicam os seus melhores esforços nas tarefas que queiram fazer. A teoria da motivação afirma que tanto os “fatores de higiene” como os “fatores de motivação” contribuem para a energia e o impulso interno. Os fatores de higiene cobrem os elementos do trabalho geralmente voltados à felicidade e satisfação: “status, remuneração, segurança no trabalho, condições de trabalho, políticas da empresa e práticas de supervisão”. Os fatores de motivação, voltados ao cumprimento de um propósito real, incluem: “trabalho desafiador, reconhecimento, responsabilidade, (...) crescimento pessoal e contribuição significativa”. Os motivadores se harmonizam de forma inata com a sua personalidade. O dinheiro é um fator de higiene, não um motivador. Um salário generoso não vai fazer você gostar do trabalho que odeia. Na verdade, muitos estão dispostos a aceitar um salário mais baixo por um trabalho realizador. Sentir-se realizado, aprender coisas novas e “fazer algo significativo” são fatores sólidos de impulso. Se os fatores de motivação no seu trabalho satisfazem a esses impulsos, os fatores de higiene vão ter menor importância.


O equilíbrio entre planejamento e serendipidade


Na década de 1960, a Honda entrou no mercado norte-americano com uma estratégia bem planejada para competir com a Harley-Davidson e a Triumph na venda de motocicletas de passeio. Quando uma série de desafios inesperados destruiu a tática, a Honda adotou uma postura de estratégia mais emergente” e conquistou um nicho com a Super Cub off-road. Isso mostra que se uma estratégia entrar em colapso, a resposta pode ser adotar uma tática mais ousada para alcançar um mercado anteriormente não segmentado. No entanto, evite “a armadilha do pensamento marginal”: muitas empresas avaliam novos empreendimentos analisando apenas as despesas e receitas marginais da iniciativa e ignoram os seus custos já existentes. Elas alavancam ativos passados para obterem retornos futuros ao invés de criarem novas capacidades. Por exemplo, a Netflix carecia de uma infraestrutura sólida, mas ainda assim ultrapassou a Blockbuster, cujos líderes estavam confiantes demais na sua superioridade histórica do mercado.

“O custo marginal de se fazer algo ‘somente desta vez’ parece sempre insignificante, porém o custo total será tipicamente muito maior.”

No lado pessoal, esteja preparado para tomar uma nova direção sábia quando chegar a hora. Veja a sua estratégia utilizada para escolher o seu curso de pós-graduação. Você talvez tenha mudado de ideia algumas vezes, definido um caminho e, após a formatura, entrou com força total nesse campo. Você tinha um plano, mas talvez ele não atraísse tanto o seu interesse ou agitasse as suas paixões no longo prazo. Como uma empresa que enfrenta um desafio e precisa flexibilizar, agora pode ser o seu tempo de considerar novas opções para uma carreira mais gratificante. Quando encontrar esse novo caminho, abandone a estratégia emergente e tenha novamente um foco mais deliberado. Avalie as suas opções e teste as suas hipóteses. Para minimizar o risco, pese as suas opções com base em provas reais.


Sua estratégia não é o que você diz que é


Para levar adiante uma estratégia, planeje o uso do seu tempo, dinheiro e energia em prol dos seus objetivos. A menos que você aloque os seus recursos com sabedoria, tudo o que você chama de “estratégia” não passa de uma “boa intenção”. Por exemplo, a SonoSite, uma fabricante de equipamentos de ultrassom, tinha grandes expectativas ao lançar um novo equipamento mais compacto, porém os vendedores continuaram oferecendo o modelo maior porque gerava comissões maiores. A estrutura de remuneração da empresa acabou minando os esforços de venda de um produto mais rentável e moderno. A forma como você aloca os seus recursos revela sua estratégia real. Como disse certa vez a autora feminista Gloria Steinem: “Para conhecer os nossos valores basta olhar para os canhotos dos nossos cheques”. O mesmo se aplica à forma como você utiliza o seu tempo e energia. Como você equilibra a sua dedicação à família, carreira, comunidade, religião e demais interesses. Todo mundo toma decisões pequenas, porém cruciais o tempo todo. Seja criterioso para fugir das decisões prejudiciais para a sua vida e carreira.


Encontrando a felicidade nos relacionamentos


Quem investe em um negócio espera que ele cresça e gere lucros. A teoria do “bom e do mau capital” resume por que algumas empresas prosperam e outras não. O bom capital pode tomar um rumo ruim em três etapas: primeiramente, os investidores de uma empresa sólida hesitam em colocar dinheiro adicional em novos investimentos. A seguir, o negócio principal da empresa perde tração após alguns anos sem injeção de capital para o crescimento, ficando em pouco tempo sem recursos para se manter à tona. Finalmente, os financiadores insistem que uma nova injeção de capital deva garantir um retorno ainda maior. Infelizmente, mais dinheiro muitas vezes leva a uma busca agressiva de estratégias erradas e a empresa entra em colapso.

“A cultura acontece, quer você queira ou não. A única questão é o quanto você (...) está tentando influenciá-la.”

O mesmo se aplica a sua vida pessoal. Quando as pessoas tentam equilibrar as exigências profissionais, especialmente nos primeiros anos da carreira, com as demandas dos principais relacionamentos, são estes últimos que muitas vezes acabam negligenciados. Quando você direciona as suas energias às atividades com potencial para promover a sua carreira, você acaba acreditando que os seus entes queridos vão entender que você está fazendo isso por eles, até que o seu cônjuge peça o divórcio, os seus filhos estejam em apuros, os seus amigos desapareçam e você não seja mais capaz de reverter a situação. Para manter relacionamentos duradouros e amorosos, alimente-os desde o início.


Por que “contratar” aquele milk-shake


As pessoas não adquirem algo porque os dados demográficos do produto ou serviço incluem suas idades, grupos étnicos ou hobbies. Pode haver certa correlação, porém não causal. As pessoas compram produtos porque acreditam que eles são capazes de resolver um problema e cumprir uma tarefa específica. Na verdade, você “contrata” um produto ou serviço para satisfazer uma necessidade, atender a uma finalidade ou realizar uma tarefa. Por exemplo, uma grande empresa de fast-food pesquisou maneiras de aumentar as vendas dos milk-shakes e aprendeu, surpreendentemente, que muitas pessoas compravam milk-shakes para desfrutarem enquanto dirigiam. A empresa mudou o seu marketing para refletir esse nicho. Aplique o mesmo princípio de satisfazer as necessidades dos clientes para aprimorar os seus relacionamentos. Seu cônjuge, filhos, amigos e colegas de trabalho, todos clientes pessoais seus, têm necessidades específicas que carecem da sua atenção. Encontre maneiras de satisfazer essas necessidades, descobrindo quais tarefas cada um “contratou” você para realizar. Faça os sacrifícios em prol da felicidade das pessoas amadas. Isso vai fortalecer a sua dedicação aos seus relacionamentos, ajudando você a colher os benefícios futuros.


Pense no futuro antes de terceirizar


Pense duas vezes antes de terceirizar demais. No início de 1990, a Dell Computadores contratou a Asus para fornecer mais partes dos seus computadores e, finalmente, entregou o design, fabricação e gestão para a Asus. Após terceirizar tudo relacionado aos seus produtos, a Dell manteve apenas sua marca. Em 2005, a Dell foi obrigada a assistir, impotente, a Asus lançar os seus próprios PCs. A Dell ainda é forte no setor de servidores, mas já não detém uma quota significativa do mercado dos PCs. As empresas e indivíduos devem ter uma maior compreensão da natureza e do valor dos seus ativos e competências, ou seja, dos recursos, processos e prioridades que ditam o que elas podem e não podem fazer. Uma empresa que terceiriza certas capacidades corre o risco de perder algumas funções que podem ser cruciais para o seu sucesso futuro. Da mesma forma, os indivíduos que terceirizam algumas ou todas as suas funções parentais arriscam-se perder oportunidades valiosas de ensinar lições importantes aos seus filhos. Criar filhos capazes de resolver problemas difíceis de forma independente e se recuperarem das dificuldades da vida exige um compromisso constante e pessoal.


As escolas da experiência


Apenas um terço entre mais de 1.000 executivos que responderam a uma pesquisa afirmaram que fizeram contratações e decisões de promoções “excelentes”. Os demais líderes disseram que suas escolhas foram “adequadas” ou “erradas”. Morgan McCall, professor da USC, adverte que os agentes de recrutamento tendem a contratar equivocadamente os “heróis natos”. Ele argumenta que um currículo exemplar não gera necessariamente desempenho de topo. McCall defende, ao invés disso, a contratação de colaboradores com a experiência que se aplique à vaga aberta, incluindo as falhas do passado que lhes ensinaram lições cruciais. É por isso que é importante ganhar uma variedade de experiências no que se aplica aos seus objetivos. O mesmo conceito se relaciona à educação dos filhos. Exponha os seus filhos a pessoas e situações que desafiem os seus conhecimentos, valores, habilidades de tomada de decisão e competências, caso você queira construir relações interpessoais profundas e criar adultos capazes de prosperar de forma independente.


A mão invisível em sua família


Empresas bem-sucedidas criam uma cultura de valores. O professor da MIT Edgar Schein define a cultura corporativa como uma “forma de se trabalhar em conjunto em prol de objetivos comuns para que as pessoas nem sequer pensem em tentar fazer as coisas de outra maneira”. O processo criativo da Pixar incentiva a colaboração extremamente sincera. Esta cultura tem fomentado uma cultura de autogestão onde os líderes confiam aos colaboradores funções bem detalhadas e que produzem resultados excelentes e consistentes. As famílias podem desfrutar dos mesmos benefícios caso estabeleçam de forma proativa uma cultura generalizada onde os pais e filhos confiam uns nos outros para ir atrás de prioridades estabelecidas e tomar decisões de acordo com os valores declarados. Escolha objetivos que sejam importantes para a sua família, e “edifique a cultura” para fortalecer essas metas.


Decida qual o seu propósito e cumpra-o


Uma empresa com um propósito declarado vai deixar um legado duradouro. Sem esse propósito, as pessoas acabam vacilando. Como indivíduo, você também precisa de um propósito que defina o valor da sua vida. “Decida aquilo que você defende. Depois, defenda-o sempre”. Para desenvolver o seu propósito, concentre-se em três áreas:

  1. Esboço – Como um artista cria o esboço de uma pintura na tela, construa uma imagem ideal dos pontos críticos na sua vida. Siga essa visão.

  2. Compromisso – Dedique-se de forma inabalável para atingir este autorretrato que é forte o suficiente para manter você no caminho certo, apesar das circunstâncias inesperadas.

  3. Métricas – Estabeleça um padrão mensurável pelo qual você possa avaliar o seu desvio ou progresso rumo aos objetivos. Pergunte-se: “Como posso avaliar a minha vida?”

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